A turma do palito.
28-04-2011 16:11Penso que era assim: um a um eles íam chegando. O primeiro anunciava sua presença, sentava e tomava uma cerveja ou uma cachaça, ou os dois. Enquanto os amigos não apareciam, passava o tempo tamborilando na mesa, assoviando, cumprimentando os vizinhos, obervando o menino que esgaravatava a terra ou outra cena típica de um bairro qualquer. Instantes depois, surge mais um... E mais outro e mais outros... Todos conhecidos há muito. Vez por outra, penetrava um gaiato na roda, que acabava se tornando vítima do "U-U", som produzido pelos integrantes permanentes do jogo de palitinho, também conhecido como purrinha, no Bar da Irene, momentos antes de principiar o almoço de cada dia.
Começavam os palpites: 13, 16, 9, 18... Creio eu que o "U-U" nada mais era do que a combinação dos jogadores veteranos para desnortear o palpite do gaiato. Agora, fosse o que fosse, era muito engraçado: um monte de homem barbado batendo o punho fechado na mesa e falando "U-U" um pro outro. Coisas do Crimeia. E em meio a petiscos, fofocas, provocações, verdadeiros debates sobre futebol, música, mulher, política... kkkkkkkkkkkkkkkkkkk, kkkkkkkkkkkkkkkkkk, kkk, era seu João Lico numa longa, gostosa e estrondosa gargalhada anunciando o acerto do número de palitos, e o consequente não pagamento das cervejas da rodada. Tinha ainda uma passada de mão no queixo dos adversários, pra humilhar mesmo. É como se você estivesse ganhando uma partida de futebol por 5 a 0 e começasse a dar caneta e chapeuzinho no time oponente.
Continuando o jogo... As regras da purrinha variam de lugar pra lugar. No Crimeia, os primeiros a acertarem a quantidade total de palitos saíam no "estouro", ou seja, ficavam fora do resto da rodada. Os dois últimos seguiam numa disputa mais complicada. Se a memória não me falha, haviam duas modalidades: "2 tiros", com o ganhador acertando a mão do jogo duas vezes seguidas; ou simplesmente, a cada acerto, descendo os palitos um a um, sagrando-se vencedor aquele que advinhar 3 vezes a quantidade de palitos nas mãos primeiro. Ao perdedor, a conta. Pode parecer um jogo de sorte e azar, e é. Mas vale também a malandragem e a psicologia. Confiança na "cantada" é fundamental. E é preciso ficar de olho nos mágicos que, entre outras artimanhas, escondem palitos entre os dedos.
Sei que a turma do palito ainda se encontra, firme e forte, no Bar da Irene. Hoje, nem todos participam das disputas. Mas os laços de amizade criados em torno da purrinha, que talvez seja o mais popular dos jogos de boteco do Brasil, permanece. É o que importa. No mais, é levar a vida. E do jeito que ela vier são 3 palitos.
Ricardo Crimeia.
A propósito: Arzenal, um dos antigos times de futebol do Crimeia, é escrito com Z, mesmo. Tiramos a dúvida, deixada na edição passada, com o nosso amigo Otoniel. O Crimeia tem muitas recordações. Mande as suas, que contaremos aqui: ricardocrimeia@gmail.com
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