Dona Maria Parteira

28/04/2011 16:04

  

Numa entrevista concedida para o Jornal Criméia nº 33 em abril de 2010, Dona Maria Siqueira ou simplesmente Maria Parteira, nos brindou com muitas histórias e revelações do tempo que fazia partos de muitas crianças no Criméia Leste e região. A edição do jornal esgotou rapidamente e hoje não há nenhum exemplar nem para nossos arquivos. Agora quando ela completa 100 anos de idade, resolvemos reapresentar alguns trechos daquela entrevista. A nossa intenção é homenagear essa mulher excepcional e mostrar aos nossos leitores a grande obra que ela realizou.

O Criméia - Onde a senhora nasceu?

Dona Maria  -  Minha mãe ficou viúva, eu nasci em Uberlândia MG em uma fazenda.

O Criméia - Quando foi que senhora veio para o Criméia?

Dona Maria  - Mudei pra cá em 1964, tinha poucas residências, tinha os polonês, do Criméia a Nova Vila era um trilheiro. Depois da Igreja é que o Criméia começou  a crescer, tinha a chácara da Julieta, a Tutinha que trabalha no hospital, o homem do caminhão.

O Criméia - Como era esta história de fazer parto naquela época, como a senhora começou.

Dona Maria - Foi por acaso. Eu trabalhava de enfermeira em Araguari, tinha um patrão bom outro ruim, fui embora cuidar da minha vida, ficar trabalhando feito burro pra este povo ganhar dinheiro. Arrumei as malas, peguei mãozinha do João (filho dela que hoje é médico) e vim parar no Criméia. Quando cheguei aqui comecei a lavar roupa. Após uma semana a mulher de um ferroviário estava pra dar a luz, o Geraldo meu cunhado, disse que eu era  doutora, fui lá fiz o parto e nunca mais tive sossego. Em Araguari, quando era enfermeira eu ajudava a fazer parto, mas como parteira comecei aqui no Criméia Leste.

O Criméia - Como era o dia a dia da senhora?

Dona Maria - O povo ia me buscar em casa, podia ser a hora que fosse, pegava o material e ia embora, fazia o parto...quando a mulher tinha qualquer problema  mandava chamar o carro pra levar pro médico, nunca perdi uma mulher, nunca morreu um bebê na minha mão.

O Criméia - Quantos partos a senhora fez?

Dona Maria -   Eu comecei a anotar, depois eu larguei. Tinha mês que eu fazia mais de trinta partos. Tinha noite que fazia três partos. Um dia eu fui fazer o parto da mulher de um soldado. Disse a ele que ela não vai dar a luz antes das sete horas, fui embora. Quando voltei, ele tava pulando alto, bravo.. A senhora não tá vendo que eu sou soldado? Eu falei – Não tenho medo de você, sua farda não vale nada, senta aí e fica calado. Quando faltava cinco pras sete, a criança nasceu, aí eu garrei ele pela blusa e falei – Aqui rapaz você ta mexendo é com gente (mostrei o bebê a ele). Ah, dona Maria me desculpe. Disse o soldado. Outro dia, à noite, eu fiz o parto lá na rocinha. Antes o marido dizia ao amigo – Você tá com fé nesta mulherzinha magrela aí? Eu fiz o parto e fui embora. Antes ouvi o amigo  falar lá do quarto, já era de madrugada, - Tá vendo, você falou mal da mulher e o menino já nasceu - aí veio me pedir desculpas. Eu disse – Gente que nasce pra trabalhar, pra  viver é arriscado a receber muita coisa, você não me conhece, quem me conhece é quem me indicou...ele ficou sem graça.

O  Criméia - A senhora perdeu a conta então de quantos partos fez?

 

Dona Maria - Muito mais de mil. Um dia fiz um parto debaixo da ponte no Córrego Botafogo, correu tudo bem. Outro dia fui fazer, outro tava complicado, chamei a viatura e mandei levar a mulher para a Santa Casa, nunca morreu mulher na minha mão. Quando o parto era perigoso eu mandava pro hospital. Só quando não dava tempo eu fazia, tirava a criança, fazia massagem, mas nenhuma morreu durante o parto.

O Criméia - Muita gente que nasceu no Criméia foi a senhora que fez o parto? 

Dona Maria - Muita gente, não melembro dos nomes, mas às vezes to andando na rua, uma mulher chega e me abraça – eu falo – não te conheço, que diabo, tá doida mulher? Aí ela fala – Oh  Dona Maria, a senhora pegou o meu neném. Um dia recebi o abraço de uma senhora que falou assim – Oh dona Maria, eu tinha passado mal, a senhora fez o meu parto, me deu roupa de cama, comida, depois a senhora trouxe roupa pro menino que nasceu. É que depois que fiz o parto, vi que a mulher era pobre,  peguei a minha bicicleta e trouxe uma mala de roupa, dei banho no neném, vesti roupa nele. Ela disse – meu filho quer te ver Dona Maria, quer te dar um presente. Eu disse – A senhora fala pra ele que eu não quero nada, só quero que ele peça a Deus por mim, ele pedindo a Deus pra me ajudar é melhor que um presente, um presente acaba, a fé dele com Deus pra mim ajudar é melhor que tudo que a senhora quer me dá. Ela disse, ele já comprou presentes duas vezes e não acha a sua casa. Eu fiquei com dó, mas até hoje nunca apareceu.

O Criméia - A senhora ia fazia os partos de bicicleta?

Dona Maria – Era, mas mexiam muito comigo, os motoristas, aí meu filho vendeu a bicicleta com medo que acontecesse algo comigo, um acidente ou outra coisa. Eu ia para o Dergo, Palmito, pra todo lado, fazer parto de bicicleta.. Fiz um em Campinas na máquina de arroz do Pedro Abrão. Peguei a bicicleta e vim embora, chegando em casa tive que voltar pra fazer outro parto de uma funcionária, tudo de bicleta. Depois que meu filho vendeu a bicicleta fiz poucos partos.

O Criméia - Além da Dona Elisa, mãe do Sinval, a senhora lembra de outras mães que a senhora fez o parto aqui no Criméia?

Dona Maria – Tem mulher aí que nem conheço, mas lembro da Maria das Graças, a Gracinha, a Tutinha, tem mais, muito mais, mas eu não me lembro os nomes.

O Criméia - O que levava a senhora a fazer estes partos?

Dona Maria – Ah, não sei não, o povo gostava e confiava em mim, me chamava e eu ia. Quando eu falava não, eu não ia. Aqui próximo  fiz um parto de três bebês, um homem e duas meninas. A mãe já morreu, chamava Elisa também, o pai eu não me lembro....Elisa, Elisa tem a mãe do Sinval, a minha filha. O marido dela casou outra vez, acho que mora no Criméia Oeste. Depois de uns três anos, dois dos meninos morreram, só ficou um.

O Criméia - Quantos filhos a senhora tem?

Dona Maria - Dois. Um homem, que é meu filho mesmo e uma mulher que adotei. Um dia me Falaram assim. Dona Maria tem uma mulher pobre passando mal embaixo da ponte, fui lá, logo a menina nasceu, bonita, muita gente queria a menina, daí a mãe falou, ninguém toca nela, só a Dona Maria, ela vai pegar e criar ela. Elisa hoje é enfermeira. Trabalha em Brasília.

O Criméia - Porque a mãe não ficou com a filha?

Dona Maria – Pobre. Ela deu a luz no chão só com uns panos...Eh menina boa a Elisa, tenho tanta saudades dela. Elisa é um nome abençoado.

O Criméia – Dona Maria depois de tantos partos o que a senhora pensa de ter trazido tanta gente ao mundo?

Dona Maria - Eu acho que isto tudo o que aconteceu foi Deus, se eu não tivesse  fé em Deus não tinha acontecido nada. Tudo isto dos partos...nunca morreu uma criança na minha mão, não é por Deus. É Deus que guia a gente, gosto muito daqui, tenho muita amizade, não tem mais o que explicar. 

O Criméia - O que a senhora tem a dizer aos muitos filhos do Criméia que nasceram das mãos da senhora?

Dona Maria – Deus que dê saúde pra eles, muita coisa boa, é a minha vontade, quero ver todo mundo bem, a coisa melhor do mundo é ver uma pessoa feliz. Pra mim felicidade é tudo. Só quero que Deus lembra de mim, já vivi muito, minhas irmãs morreram quase todas, tenho só um irmão e uma irmã...tenho muitas saudades da Elisa, ela liga cedo e de noite, ainda vou dar um retrato dela para a cumade Elisa (mãe do Sinval). Eu tinha quinze anos e tinha uma prima que se chamava Elisa, gostava muito dela, minha mãe me carregou e eu fui embora, depois apareceu uma mulher pobre para eu fazer o parto, ela me deu a filha, hoje ela é Elisa, uma grande enfermeira. Elisa é um nome abençoado.

 

 

 

 

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